segunda-feira, 1 de julho de 2013

Te Esperando põe em questão "Amor ou maluquice?"

  Menino conhece menina, ambos ali pelos 20. Ele tenta, ela dispensa. Num devaneio, ele imagina a vida dela seguindo: a moça conhece outro cara (“Na fila de um banco/ Um tal de Fernando/ Um lance assim sem graça”), casa-se com ele sem amá-lo, sustenta o casamento por anos por causa dos filhos... Por fim, imagina que ela vai se lembrar da juventude e se perguntar por onde aquele garoto (ele) deve andar. E brada: “Eu vou estar te esperando/ Nem que já esteja velhinha gagá/ Com noventa, viúva, sozinha, não vou me importar/ Vou ligar, te chamar pra sair/ Namorar no sofá”.

 A declaração — entre o romantismo da paixão eterna e a obsessão de tons bizarros — está na música “Te esperando”, que, na voz de Luan Santana, é a mais tocada no Brasil desde o fim de março, quando foi lançada. Rara em sua incursão na paixão na terceira idade (com direito a cadeira de balanço na letra), ela faz parte de uma linhagem de canções de amor exacerbado que, com menos ou mais humor ou leveza, ficam no limite entre a loucura e o romance. 

 Uma tradição que vai da quase psicopata “Every breath you take” (“Cada respirada que você der/ Cada movimento que você fizer/ Cada elo que você quebrar/ Cada passo que você der/ Eu estarei observando você”) à exagerada “Por você” (“Eu iria a pé do Rio a Salvador”), passando pela masoquista “Cigana” (“Maltrata de vez/ Estou com saudade/ E a sua maldade me faz delirar”) e pela sufocante “Esse cara sou eu” (“O cara que pensa em você toda hora/ Que conta os segundos se você demora/ Que está todo o tempo querendo te ver/ Porque já não sabe ficar sem você/ E no meio da noite te chama/ Pra dizer que te ama”).

 Luan não tem dúvida quando pensa se a música retrata amor ou loucura:
Sinto que tem um monte de “maluco” por aí, porque essas músicas tocam mesmo no coração das pessoas. O que tem de gente que chega pra mim e fala: “‘Te esperando’ é a música da minha vida, é a minha história”. Então, tem um monte de gente que ficaria esperando uma vida inteira. Não se trata de romantismo exagerado, exacerbado — diz, por e-mail, citando Carlos Drummond de Andrade (“Amar se aprende amando”) e Vinicius de Moraes (“Escravo da alegria”), além de Gabriel García Márquez. — Estou numa fase de leitura. Ganhei o livro “O amor nos tempos do cólera”, com a dedicatória: “Se Florentino Ariza e Fermina Daza vivessem a sua história hoje, certamente ‘Te esperando’ seria a trilha sonora do casal”.

 Autor da canção, Bruno Caliman realça o romantismo, mas reconhece o humor da letra:
As músicas estavam falando de um amor muito rápido, ninguém espera ninguém, se quer, quer, se não quer, tchau. “Camaro amarelo", que fiz, é assim. Quis desta vez uma música sobre um cara que não esperasse a menina por dois ou dez anos, mas pela vida inteira. As pessoas têm que ter paciência com seus sonhos, elas desistem fácil. Às vezes vale a pena esperar. Nem tanto, claro, ali é licença poética. Pensei no humor também, “velhinha gagá”. Se eu fosse classificar a música que faço, seria comédia romântica.

 Letrista de “Por você”, lançada pelo parceiro Frejat, Mauro Sta. Cecília conta que as promessas dos versos podem ter outra leitura:
Toni Platão brinca que é a música mais canalha que existe — conta. — Mas escrevi para uma mulher, uma relação que estava subindo no telhado. Estava vivendo aquilo, sentindo.

 Luiz Carlos, do Raça Negra, letrista de “Cigana”, resume:
O amor é algo maluco

Fonte: O Globo.

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